Lamatabois – Dupourqué (Duas famílias que se uniram)
(Celso Jaloto Avila Junior – 10/03/2026)
Sou brasileiro e quando me casei, passei a morar no estado do Rio Grande do Sul, na cidade de São Gabriel, localizada muito próxima da fronteira com o Uruguai. Esta é a cidade natal da minha esposa e de sua família. Há alguns anos, resolvi fazer uma pesquisa genealógica de sua família, pois quase nenhuma informação era conhecida. Aí a minha surpresa foi saber que pelo ramo de sua avó materna, minha esposa era a 5ª geração de descendentes de um casal de emigrantes franceses, JEAN JULIEN LAMATABOIS GAUCHET e MARIE DUPOURQUÉ, vindos do Sudoeste da França, em meados do séc. XIX, da região histórica do Béarn, na “Nouvelle-Aquitaine”, no Departamento do Pyrénées-Atlantiques.
Depois de muito pesquisar e contar com a troca de informações com o genealogista brasileiro, Miguel Costa, as famílias francesas sempre foram as maiores dificuldades. Mas, esse ano conheci pela Internet, a francesa Christiane Bidot-Naude, que muita informação me enviou e com quem tenho trocado mensagens por Email. Então, ela me pediu que eu escrevesse uma breve história desta família. Ainda temos muito a pesquisar e escrever sobre esta família. Portanto, aqui estou buscando compartilhar informações genealógicas e história oral desses emigrantes e seus descendentes que um dia sonharam em formar uma família distante de sua terra natal.
A Antiga Região do Béarn
No ano de 1839, o sudoeste da França vivia ainda sob o ritmo antigo e tradicional das pequenas vilas do Béarn. Entre colinas suaves, vinhedos e campos de trigo, aldeias medievais guardavam tradições que pareciam imutáveis havia séculos.
Na cidade de Orthez, próxima ao rio “Gave de Pau”, artesãos e comerciantes mantinham suas oficinas abertas para as ruas estreitas e movimentadas. Entre eles estava o pai de “Jean Julien Lamatabois Gauchet”, Pierre Lamatabois Gauchet (2º), um habilidoso fabricante de lanternas, com sua casa localizada na Rua St. Gilles. Em sua pequena oficina, o brilho do metal e do vidro refletia a luz das velas enquanto ele moldava peças destinadas às casas, às carruagens e às ruas da região.
Cerca de dezoito quilômetros dali, na cidade termal de águas salgada, estava Salies-de-Béarn, onde vivia o pai de “Marie Dupourqué”, Pierre Dupourqué (2º), conhecido na região por seu ofício de ferrador de cavalos e animais de trabalho. Seu martelo ecoava nas manhãs frias enquanto moldava ferraduras incandescente sobre a bigorna.
Mas naquele mesmo ano, dois jovens dessas famílias tomariam uma decisão que mudaria para sempre o destino de suas vidas e de seus descendentes.
Pressões Políticas e Econômicas da França na Metade do Séc. XIX
No período de 1827-1830, teve uma deterioração na economia francesa, com problemas agrícolas e impactando nos preços dos alimentos, aumentando a insegurança e tensão social. O seu ápice ocorre no ano de 1830, com a Revolução de Julho (“Trois Glorieuses”, 27–29 de julho), que indiretamente refletiu na emigração francesa. Para quem já estava em situação econômica apertada, a migração passou a ser uma opção. Principalmente porque já havia uma rede migratória pronta para as Américas, (parentes/contratadores/armadores) e expectativa de acesso à terra/trabalho. Principalmente que vários países sul-americanos estavam se tornando independentes e careciam de mão de obra.
Entretanto, esse não era o único motor migratório. Havia a pressão econômica rural e “herança fragmentada”. Imagine uma pequena propriedade rural. Se o dono tem 4–6 filhos, a terra pode ser repartida em parcelas cada vez menores a cada geração. “Partible Inheritance” (divisão entre herdeiros). Gerava custos e conflitos para “comprar a parte” dos irmãos e áreas rurais pequenas demais para sustentar uma família.
Para completar, o ano de 1832 se agrava com um surto de cólera. A epidemia começa no fim de março e vai até setembro. Segundo pesquisas recentes, a França teve que enfrentar mais de 100 mil mortes em todo país.
Família de Jean JULIEN LAMATABOIS GAUCHET
I-1 – Pierre Lamatabois Gauchet (1º) – casado com Jeanne Larrousseigt *1732
Filhos deste casal I-1 (Pierre 1º e Jeanne):
II-1 – Barthelemy Lamatabois Gauchet *1761
II-2 – David Lamatabois Gauchet *1762
II-3 – Pierre Lamatabois Gauchet *1764
II-4 – Pierre Lamatabois Gauchet *1765
II-5 – Pierre Lamatabois Gauchet *1766
II-6 – Pierre Lamatabois Gauchet (2º) *18/08/1767, Orthez † 24/02/1842 – casado (04/02/1804, Orthez) com Jeanne Coeyrefourg *19/04/1778, Orthez – † 06/01/1819, aos 40 anos. (Pais de Jeanne eram: Abraham Coeyrefourg e Catherine Prince).
II-7 – Jean Pierre Lamatabois Gauchet *1768
II-8 – Jean Lamatabois Gauchet *1774
Filhos deste casal II-6 (Pierre 2º e Jeanne):
II-6 – Pierre Lamatabois Gauchet (2º) *18/08/1767, Orthez † 24/02/1842 – casado (04/02/1804, Orthez) com Jeanne Coeyrefourg *19/04/1778, Orthez – † 06/01/1819, aos 40 anos. (Pais de Jeanne eram: Abraham Coeyrefourg e Catherine Prince).
III-1 – Abraham Lamatabois Gauchet *1804
III-2 – Suzanne Lamatabois Gauchet *1806 falecida com 13 anos em 1819
III-3 – Barthelemy Lamatabois Gauchet *1807 casado em Orthez com Claire (ou Marie ou Marie Claire) Laforre. Este casal tiveram um filho, também Jean Lamatabois *23/04/1840, Orthez. Em 1856, emigrou com 16 anos, para Buenos Aires.
III-4 – Etienne Lamatabois Gauchet *1808 falecida em 1809
III-5 – Marguerite Lamatabois Gauchet *1810 falecida em 1829 a 19 anos
III-6 – Jeanne Lamatabois Gauchet *1812 casada em Orthez com Matthieu Larrousseigt
III-7 – Catherine Lamatabois Gauchet *1814 falecida em 1818
III-8 – Jean Julien Lamatabois Gauchet *12/10/1815, Orthez, † 08/01/1879, Brasil – casado (07/06/1840, Montevideo) com Marie Dupourqué *21/02/1817, Salies de Béarn, † 04/06/1880 ou 24/7/1880, Brasil. Este foi o casal que emigrou para Montevideo.
III-9 – Suzanne Lamatabois Gauchet *1817
Família de MARIE DUPOURQUÉ
I-1 – Pierre Dupourqué (1º) – casado com Jeanne Desperbasque
Filho deste casal I-1 (Pierre 1º e Jeanne Desperbasque):
II-1 – Pierre Dupourqué (2º), conhecido por “Rousset”, *1772, Salies de Béarn, † 1830 (profissão ferrador de cavalos, “marechal-ferrant”) – casado (08/08/1800) com Catherine Bareille, * 1782, Carresse-Cassaber, † 1830. (Pais de Catherine eram: Jean Bareille e Catherine Lestelle.
Filhos deste casal II-1 (Pierre 2º e Catherine Bareille):
III-1 – Isaac Dupourqué *1802, faleceu solteiro †1837, profissão ferrador de cavalos (“marechal-ferrant”).
III-2 – Jeanne Dupourqué *1803, casada em 1835 com Jean Morlaas.
III-3 – Anne Dupourqué *1807, casada em 1837 com Jean Lorteigt.
III-4 – Marie Dupourqué *21/02/1817, Salies de Béarn, † 04/06/1880 ou 24/7/1880, Brasil – casada (07/06/1840, Montevideo), com Jean Julien Lamatabois Gauchet *12/10/1815, Orthez, † 08/01/1879, Brasil. Este foi o casal que emigrou para Montevideo.
Do Porto de Bordeaux para Montevideo
Ainda temos dúvidas sobre os detalhes da viagem do casal Jean Julien Lamatabois Gauchet e Marie Dupourqué. Isto porque não encontramos ainda a lista de passageiros da viagem deles, nem o nome do navio. Também existe uma dúvida se Marie fez a viagem antes de Jean Julien, ou se ela estava noiva o acompanhou mesmo sem ainda estar casada com ele.
No ano de 1839, quando Jean Julien Lamatabois Gauchet viajou de Bordeaux para Montevideo, ele tinha 24 anos de idade e já era órfão de mãe, desde os 4 anos de idade. Já a Marie Dupourqué, tinha 22 anos e havia ficado órfã de pai e de mãe desde os 13 anos de idade.
Consegui um extrato dos registros de vistos concedidos pela prefeitura de Gironde a portadores de passaportes franceses. Neste extrato temos: “Em 27 de setembro de 1839 – LAMATABOIS, Gauchet obteve um visto concedido pelo prefeito de Gironde. Ele portava um passaporte emitido pela prefeitura de Basses-Pyrénées. O visto era para uma viagem a Montevidéu.” Nesta época, Orthez estava localizada no Departamento do “Basses Pyrénées” hoje o nome correto é “Pyrénées-Atlantiques”.
Consegui também, uma cópia da folha do Livro de Registros, do Consulado francês em Montevideo, dos emigrantes chegados naquela cidade. O registro de nº 3.109, de Jean Julien Lamatabois Gauchet, consta sua profissão exatamente como seu pai, que era fabricante de lanternas e ele era portador de um passaporte emitido pela prefeitura de Basses-Pyrénées e finaliza com a data de 20 de dezembro de 1839, deste registro.
Casamento dos Emigrantes Jean Julien e Marie
Na França, até 1792, as certidões de nascimento, casamento e óbito, eram emitidas nas igrejas, pelos padres. Depois de 1804, as certidões de estado civil passaram a ser emitidas na prefeitura, na presença do prefeito. No Uruguai a responsabilidade da Igreja Católica, para com os registros civil (nascimento, casamento e óbito), passou para o Estado a partir de 1879. No Brasil, foi transferido para o Estado a partir de 1889.
No caso específico da América do Sul, que foram colonizada pela Espanha e Portugal, basicamente entre os Séc. XVI a XVIII, a totalidade das igrejas era de religião católica. Os cultos protestantes só iniciaram a partir de meados do Séc. XIX. Portanto, Argentina, Uruguai e estado do Rio Grande do Sul no Brasil, à medida que os imigrantes europeus protestantes foram aumentando, surgiram lentamente os luteranos, anglicanos, valdenses e metodistas, a partir da década de 1820-1830.
Ao buscar pelo casamento de Julien e Marie, demorei a entender tudo isso. Não tínhamos na história oral da família, de que eles eram protestantes ou católicos. Mas a medida que trocávamos correspondência com arquivos franceses, foram crescendo a informação de que eles eram protestantes. Assim, iniciamos a busca pelos arquivos das igrejas católicas de Montevideo, no ano de 1840. Entretanto, nos livros de casamento, nada existia. Até que chegamos a um livro do “Arzobispado de Montevideo – Archivo de la Curia”, microfilmado do Site FamilySearch, onde faziam os registros das “Proclamas de Casamento”, onde os noivos anunciavam a intenção de matrimônio. Antes do Estado assumir essa responsabilidade e obrigatoriedade, os tramites legais eram feitos pela Igreja Católica.
Lá estava o registro nº 67, com 4 páginas, do dia 01/06/1840, registrando as proclamas do casal Julien e Marie, onde em um trecho diz: “……..realizado según el orden establecido por nuesta Santa Madre Iglesia C. A. R.” (CAR: Católica Apostólica Romana)….”. Entretanto, não é um padre quem assina que está de acordo e sim o auxiliar do escrivão Hipolito Solex e Juan Pedro Gonzalez (Notário), responsável pela veracidade dos documentos. Transcrevo a cópia fiel do início do texto: “Julian Lamatabois natural de Francia hijo legitimo de Pedro Lamatabois y de Ginela Abraham, finada………”. O nome de sua mãe, como sendo “Ginela Abraham”, me deixou intrigado, pois os pais de Julien eram: “Pierre Lamatabois e Jeanne Coeyrefourg” e o pai de Jeanne era Abraham Coeyrefourg. Porém, Julien ficou órfão de mãe, aos 4 anos de idade. Acredito que ele fez confusão de nomes ou o seu pai havia casado novamente e esta seria a sua segunda esposa.
Ao final do texto deste “proclamas”, antes de Julien Lamatabois assinar, tem o depoimento de três testemunhas de franceses, que vale a pena deixar registradas: Pedro Manes, de ofício carpinteiro, de quarenta e três anos, que conhece Julien desde seu pais; Fabian Manes, de ofício padeiro, que conhece Julien desde seu pais; Julian Pouyanne, de ofício alfaiate, de dezenove anos, que conhece Julien sendo da mesma cidade que ele.
No Site criado entre 1999 a 2008, pelo pesquisador Jeremy Howat, que escreveu sobre a fundação da “Igreja Evangélica METODISTA Uruguaia”, ele comenta: “A Igreja Metodista Episcopal em Montevidéu foi fundada em 1839 pelo Reverendo William Henry Norris, que foi enviado da América do Norte para este fim.” Ele transcreve os primeiros Matrimônios e os primeiros Batismos registrados em Montevideo e esses mesmos registros, foram transcritos para o livro da igreja criada em Buenos Aires, Argentina. Os interessados, acessem os links a seguir, pois existem várias possibilidades de busca. (https://www.argbrit.org/).
Finalmente o Casamento – No 1º livro de casamento desta “Igreja Metodista Episcopal”, lá está o único casal francês, na página 4/2, realizado no dia 07/Junho/1840, do casal Julien Lamatabois e Maria Dupourqué, realizado em Montevideo. Casamento celebrado por “William Henry Norris”, Ministro Metodista. Foram testemunhas, John Becker e outros. Notas: “O culto da nossa igreja foi traduzido e lido em francês pelo Sr. Becker depois que eu o li em inglês.”
Entre a Incerteza e a Esperança – Rumo ao Brasil
No ano de 1842, no cone Sul, Uruguai, Argentina e Brasil, viviam momentos de muita tensão política que aumentava no Uruguai, onde os dois partidos políticos Blanco e Colorado buscavam a hegemonia do poder e as ações bélicas começaram com o envolvimento inicial entre Uruguai e Argentina. Esse evento hoje, os historiadores o chamam de “Guerra Grande” (1839-1852). Penso que o casal Julien Lamatabois com 26 anos e sua esposa Marie Dupourqué com 24, morando em Montevideo e tendo chegado da França há apenas um ano e meio, decidiram novamente a partir em busca de outro pais. Naquele momento escolheram o Brasil, na tentativa de tornar seus sonhos uma realidade para um futuro promissor e se afastar deste situação conturbada por qual passava o Uruguai.
Historicamente, muitos imigrantes optavam pelas cidades brasileiras do Rio Pardo ou Uruguaiana. A escolha foi por Rio Pardo, porque estariam em território brasileiro controlado e seguro, tinham redes comerciais estabelecidas e era um centro de colonização. Porém, teriam que percorrer, por água, cerca de 970 quilômetros, percurso que levaria em torno de 8 a 14 dias, tudo dependeria das condições meteorológicas. Lembrando que, a ferrovia no Rio Grande do Sul, só chegaria no ano de 1870.
O primeiro trecho seria por mar aberto, de Montevideo até a entrada da conhecida Lagoa dos Patos, indo até Porto Alegre, onde nova embarcação mais leve e de menor calado, seguiria pelo Rio Jacuí até a cidade de Rio Pardo. Cidade esta que na época era um ponto estratégico tanto militar, como rota de passagem obrigatória para a fronteira oeste do estado do Rio Grande do Sul.
Vamos embarcar com eles, nessa aventura. Leia agora como foi essa viagem:
Nas tavernas do porto de Montevideo e nas esquinas da cidade repetiam-se as mesmas conversas inquietas. Falava-se em guerra entre os dois grandes partidos políticos do país — Blancos e Colorados — e em batalhas que se aproximavam cada vez mais da capital. Navios chegavam trazendo notícias confusas e muitas vezes contraditórias. Alguns diziam que tropas avançavam pelo interior; outros falavam em bloqueios de rios e em novas alianças com Buenos Aires.
Para quem havia atravessado o Atlântico em busca de paz e trabalho, aquilo soava como um destino cruel.
Julien Lamatabois escutava tudo em silêncio. Aos vinte e seis anos, o jovem francês já parecia carregar mais responsabilidades do que muitos homens mais velhos. Ao entardecer, caminhava pelo cais observando os navios ancorados e imaginando qual deles poderia levá-lo a um futuro mais seguro.
Em casa, Marie Dupourqué dividia suas preocupações. Tinha apenas vinte e quatro anos, mas a maternidade lhe dava uma serenidade firme. No colo segurava o pequeno Henrique, que havia completado um ano havia pouco tempo. O menino começava a dar os primeiros passos pela pequena casa que alugavam perto do porto.
Marie estava novamente grávida. Era por eles que Julien pensava todas as noites.
Ficar em Montevidéu significava viver à sombra de uma guerra que parecia inevitável. Partir novamente era arriscar o pouco que haviam conquistado desde que deixaram a França.
Sobre a mesa de madeira, iluminada por uma lamparina de óleo, o casal discutia as possibilidades.
Subir o Rio Uruguai até a vila de Uruguaiana parecia o caminho mais curto. Porém os rumores eram de que as embarcações sofriam restrições impostas por Buenos Aires e que as tensões políticas podiam tornar a viagem perigosa.
A outra alternativa era seguir pelo mar até Porto Alegre e depois subir o Rio Jacuí até a cidade de Rio Pardo, uma antiga povoação militar do sul do Brasil. O percurso era mais longo e exigia enfrentar o oceano e os ventos fortes da costa do sul, mas teria a vantagem de levá-los diretamente ao território brasileiro.
Durante dias o casal ponderou cada detalhe. No início do outono, Julien tomou sua decisão.
Venderam alguns poucos móveis e reuniram o dinheiro suficiente para pagar a passagem em um pequeno navio mercante que partiria rumo ao litoral do Rio Grande do Sul. Não levavam muitos pertences: algumas roupas, utensílios simples e uma pequena caixa de madeira com lembranças da França.
Na manhã da partida, o porto de Montevidéu estava envolto por um vento frio que vinha do sul. Marinheiros carregavam sacas de mercadorias e barris de mantimentos para o porão da embarcação.
Julien ajudou Marie a subir pela estreita prancha do navio, segurando cuidadosamente o pequeno Henrique. A criança observava tudo com curiosidade, sem compreender que mais uma vez sua família deixaria para trás uma terra em busca de outra.
Quando as velas começaram a ser içadas, Marie segurou a mão do marido.
— Talvez desta vez seja definitivo, disse ela em voz baixa.
Julien olhou para o horizonte cinzento do estuário do Rio da Prata.
Não respondeu imediatamente.
Por fim apenas apertou a mão da esposa e disse:
— No Brasil construiremos nossa casa.
Enquanto o navio lentamente deixava o porto, Montevidéu desaparecia atrás da neblina da manhã.
Diante deles abria-se novamente o caminho do desconhecido — mas também da esperança.
Filhos do Casal JEAN JULIEN LAMATABOIS E MARIE DUPOURQUÉ LAMATABOIS
IV-1 – HENRIQUE LAMATABOIS *27/07/1841, Montevideo, b.23/09/1841, Livro 1 Fl. nº 37, Montevideo.
Este primeiro filho foi batizado em Montevideo, na mesma “Igreja Metodista Episcopal”, onde seus pais se casaram. Foi o 4º registro de batismo, lançado no 1º livro, pagina nº 37, celebrado por “William Henry Norris”, Ministro Metodista. Ele informa ter batizado no dia 23/09/1841, Henrique Lamatabois que havia nascido no dia 27/07/1841, filho de Julian Lamatabois e Maria Dupourqué Lamatabois (agora já com o sobrenome do marido).
Este filho Henrique, acredito que tenha falecido criança, pois não foi mais comentado pelos mais velhos da família.
IV-2 – CLARICE LAMATABOIS *26/04/1843, (? Lugar desconhecido) †31/03/1925, São Gabriel-RS, Brasil, aos 82 anos. Casou com o Capitão AFFONSO DA COSTA REBELLO CORREA DA SILVA *27/02/1837, Alegrete-RS, Brasil, b. 04/04/1837, Alegrete-RS, Brasil, †30/10/1909, Uruguaiana-RS, Brasil.
A história oral, nos diz que Clarice nasceu em águas argentina, emigrando para o Brasil. Ainda não encontramos o local onde nasceu. Portanto, acreditamos que sendo 1843 a data de nascimento, deve ter nascido no Uruguai ou em algum lugar na viagem de Montevideo para o Brasil.
Acreditamos que o seu casamento com Affonso, ocorreu no ano de 1859, na cidade de Rio Pardo-RS ou Uruguaiana-RS. Depois do casamento ela passou a ter o nome de “Clarice Lamatabois Correa da Silva”.
Infelizmente, nenhum dos oito filhos receberam o sobrenome Lamatabois, pois todos receberam o sobrenome de seu pai. Alguns “Correa da Silva” e outros “Costa e Silva”.
O esposo da Clarice, o Capitão Affonso da Costa Rebello Correa da Silva, era militar, assim como seu pai e também seu avô. Seu avô, o Brigadeiro Thomaz da Costa Correa Rebello e Silva, nasceu em 1768, em Portugal, em 1792 concluiu curso de Bacharel na Universidade de Coimbra e em 1797, como Capitão veio para o Brasil e fez toda sua carreira militar, falecendo em 1818. Seu neto Capitão Affonso, participou da Guerra do Paraguai, nos anos de 1865 e 1866.
Clarice Lamatabois é a tataravó da minha esposa, que ao falecer, no ano de 1925, ela já era viúva e morava em São Gabriel-RS.
Clarice e Affonso, depois de casados, moravam na cidade de Uruguaiana-RS, onde tinham uma fazenda de criação de bovinos e lá nasceram os seus oito filhos:
V-1 – Júlio Correa da Silva – * 24/09/1860, b. 05/01/1861, Uruguaiana-RS † 23/07/1923 São Gabriel-RS.
V-2 – Celina Estelita da Costa e Silva – *13/04/1862, Uruguaiana-RS †14/07/1949, Cruz Alta-RS.
V-3 – Maria Estelita Correa Da Silva – * 15/04/1863, Uruguaiana † 09/09/1959, São Gabriel-RS.
V-4 – Clarissa da Costa e Silva – * 21/09/1865, Uruguaiana-RS † 11/07/1867.
V-5 – Maria da Costa e Silva – * 05/02/1869, † 09/05/1869.
V-6 – Afonso da Costa e Silva – * 13/08/1870, † 04/02/1923.
V-7 – Arthur da Costa Rebello Correa e Silva – * 18/05/1872, † 07/01/1917.
V-8 – Manoel da Costa e Silva – * 18/06/1875, † 26/08/1875.
IV-3 – CELINA LAMATABOIS *1848, (?data e Lugar desconhecido). † 04/03/1902, São Gabriel-RS – Faleceu com 54 anos e no seu registro de óbito diz ser “natural deste estado o Rio Grande do Sul”. Casou em 04/07/1885, em São Gabriel-RS, com CAMILO MACHADO DE SOUZA *05/05/1825, b.27/12/1825, Jaguarão-RS †24/06/1894, São Gabriel-RS.
Depois do casamento ela passou a ter o nome de “Celina Lamatabois Machado”. Não tiveram filhos.
Seu esposo Camilo já havia sido casado por duas vezes. Um dos filhos do primeiro casamento, de nome Capitão Camilo Theodoro Machado de Souza, era casado com “Maria Estelita Correa da Silva”, filha da Clarice Lamatabois com Affonso da Costa Rebello Correa da Silva.
Camilo Machado de Souza era da 3ª geração de emigrantes portugueses que vieram das ilhas do Arquipélago dos Açores, tendo chegado no Rio Grande do Sul, em meados do Séc. XVIII.
IV-4 – EUFÊMIA LAMATABOIS *1845 a 1846, Rio Pardo.
Da menina Eufêmia, não tínhamos conhecimento de sua existência, até que ao buscar registros de nascimentos na cidade de Rio Pardo-RS, o amigo e genealogista Miguel Costa encontrou no Site do FamilySearch, um livro da Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário, da cidade de Rio Pardo, que listavam os nomes das crianças que haviam recebido o “Sacramento da Confirmação”, que hoje é mais conhecido na igreja católica como CRISMA.
Esta listagem tinha a data de 23 de Maio de 1854. É descrito o nome da criança, o nome dos pais dela, e o nome do padrinho ou madrinha da criança. No caso da Eufêmia ela era o número 63, de uma listagem de 64 crianças e a madrinha dela era Joana Antônia da Fonseca.
Não consta a idade das crianças. Entretanto, elas deviam ter idade de poder entender o catecismo e o significado da sua “confirmação como cristão”. Em vista disso, julguei que ela devia ter nascido entre o ano de 1845 a 1846, pois o seu irmão Theodoro que era nascido em 1850, também estava nesta cerimônia e ela só podia ser mais velha do que seu irmão.
O nome da Eufêmia não mais apareceu. Presume-se que ela tenha falecido ainda criança.
IV-5 – THEODORO LAMATABOIS *22/02/1850, b.08/04/1850, Rio Pardo-RS, †21/07/1914, São Gabriel-RS e morava na Rua General João Manoel.
1º Casamento (05/09/1874), (? Lugar desconhecido), Maria Josephina Walter (*1854, Cachoeira do Sul-RS, †23/06/1875, São Gabriel-RS) – Não tiveram filhos.
2º Casamento (11/10/1877), São Gabriel-RS, Maria Joaquina Braga (*15/12/1867, Santa Maria-RS, †17/05/1936, São Gabriel-RS.
Theodoro Lamatabois, teve uma casa de comércio em São Gabriel, na rua General João Manoel, esquina com a Rua Coronel Sezefredo.
Ele foi um político de destaque na cidade de São Gabriel e pertencia ao “Partido Republicano do Rio Grande do Sul”, sendo muito bem relacionado com o Governador do estado e políticos da época. Com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, o Brasil deixa de ser um Império e passa a ter uma República. Theodoro Lamatabois e mais dois cidadãos foram escolhidos para participar da “Junta Governativa da Cidade de São Gabriel”. A partir de 1891 ele foi eleito Intendente Municipal, o que mais tarde passou ter a denominação de Prefeito Municipal. Face a seus trabalhos em prol da cidade de São Gabriel, hoje existe uma rua da cidade com o nome de “THEODORO LAMATABOIS”.
Filhos deste casal IV-4 (Theodoro Lamatabois e Maria Joaquina Braga):
Todos os filhos deste casal nasceram em São Gabriel-RS.
V-1 – JÚLIO LAMATABOIS – (*22/07/1878, †24/03/1954, São Paulo) – Casado (17/03/1917, Salvador-BA) com Aida de Campos Gordilho (*05/06/1887, †11/12/1979, São Paulo-SP)
VI-1.1 – Maria Helena Lamatabois Alves (*08/06/1920, †18/06/1994, São Paulo). Ela casou em 28/12/1943, Salvador-BA, com Antônio Macuco Alves(*09/02/1909, †17/02/1976).
Júlio quando atingiu a maioridade, foi morar em Salvador-BA. Foi o único LAMATABOIS que saiu do estado do Rio Grande do Sul e lá se casou, vindo inicialmente a trabalhar com uma empresa de seguros. Com sua visão empreendedora, passou a produzir cacau e anualmente exportava o cacau para produção de chocolate. No ano de 1914 ele exportou toda sua produção Cacau e naquele ano, a França comprou praticamente o equivalente em quilos de Cacau que ele vendeu. Ou seja, o seu avô emigrante, Jean Lamatabois chegou no Uruguai em 1839 e um de seus netos, 75 anos depois, em 1914, exportou Cacau para França, terra natal de seu avô.
V-2 – MARIA 1ª LAMATABOIS – (* 16/09/1881, † 02/10/1881, São Gabriel-RS).
V-3 – MARIA 2ª LAMATABOIS – (* 07/05/1883, † 07/05/1883, São Gabriel-RS).
V-4 – ESTELLA LAMATABOIS – (* 29/09/1879, † 09/10/1910, São Gabriel-RS), Casada com o 1º Tenente Jocelyno Pacheco de Assis (*11/07/1871) e tiveram 4 filhos: Cely, Afrânio, Clarice, Ariosto.
VI-4.1 – Cely Lamatabois Assis (*28/11/1904, ??).
VI-4.1 – Afrânio Lamatabois Assis (*07/08/1906, ??).
VI-4.1 – Clarice Lamatabois Assis (*07/04/1908, ??).
VI-4.1 – Ariosto Lamatabois Assis (*26/08/1909, ??).
V-5 – CÉLIA LAMATABOIS – (* 25/01/1887, † 16/12/1925, São Gabriel-RS). Não deixou filhos.
V-6 – EDMUNDO LAMATABOIS – (*05/10/1888, †13/02/1913, Porto Alegre-RS. Ao Falecer seu pai Theodoro fez o registro de óbito em Barra do Ribeiro, 7º Distrito de Porto Alegre). Ele estava cursando o último ano da Faculdade de Medicina em Porto Alegre quando faleceu. Não deixou filhos.
V-7 – MARIA 3ª LAMATABOIS – (* 29/09/1896, † 19/02/1991, Rio de Janeiro-RJ). Foi a mais antiga LAMATABOIS com quem eu conversei pelo telefone, em 1990, pois ela morava no Rio de Janeiro-RJ e faleceu solteira, com 95 anos.
Conclusão
Espero ter conseguido mostrar um pouco da família Lamatabois / Pourqué e seus descendentes. A história oral nem sempre nos transmite todas as informações que gostaríamos de ter. Muitas vezes precisamos deduzir ações realizadas e escolhas feitas em momentos difíceis. Mas, por outro lado história de família e genealogia não é um livro pronto e acabado. Sempre algum descendente tem algo mais a ser revelado ou mesmo um documento, ou uma fotografia que estava esquecida em um arquivo pessoal.
Estou à disposição de todos aqueles que tenham interesse nessa história da família. Como também, se alguém tiver fotografias relacionadas a eles, bem como nos enviar alguma informação mais, estamos totalmente a disposição.
« A genealogia é o ato nobre de transformar nomes esquecidos em histórias vivas, erguendo uma ponte entre o passado e o futuro, e garantindo que as raízes que nos sustentam jamais sejam apagadas pelo tempo. »


